A MAIOR TRANSFORMAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA AINDA NÃO ACONTECEU: É HORA DE CUIDAR DAS PESSOAS

Durante os últimos anos, a Administração Pública brasileira passou por uma das maiores transformações de sua história, agora a próxima reforma precisa ser humana.

Aprendemos uma nova linguagem. Falamos de governança, gestão de riscos, integridade, compliance, transparência, planejamento, controles internos, programas de integridade, inteligência artificial, transformação digital, indicadores, fiscalização, responsabilização e eficiência.

A Lei nº 14.133/2021 consolidou esse novo momento. Não há dúvida de que era necessário. Os processos precisavam evoluir. Os controles precisavam ser fortalecidos. A sociedade exigia uma Administração Pública mais eficiente, transparente e comprometida com o interesse público. E nesse campo ainda há muito o que ser feito.

É chegado o momento de darmos uma parada para amenizar o peso do clima organizacional! É preciso olhar para quem realmente faz tudo acontecer.

As pessoas.

Nenhuma lei é capaz de transformar a Administração Pública sozinha.

Nenhum sistema produz resultados por conta própria. Nenhuma ferramenta de inteligência artificial substitui a consciência de quem decide.

Ao final de cada procedimento existe o ser humano, existe alguém que escolhe, que atende, que planeja, que fiscaliza, que compra, que ensina, que cuida, que decide. O homem não sobrevive sem a tecnologia e nenhuma inteligência artificial vai existir sem o homem!

E talvez seja exatamente aí que esteja o próximo passo da Administração Pública brasileira.

Precisamos voltar a falar das pessoas e não apenas da qualificação técnica, mas do ser humano que existe por trás do cargo.

Durante muito tempo discutimos competências. Agora precisamos resgatar propósitos.

Falamos muito sobre responsabilização, talvez esteja na hora de falar mais sobre pertencimento.

Falamos muito sobre riscos, talvez esteja na hora de falar também sobre confiança.

Falamos muito sobre controle, mas pouco sobre inspiração.

Vivemos uma época em que a velocidade da informação, a tecnologia e a competitividade passaram a ocupar quase todos os espaços da nossa convivência e levamos isso para dentro das organizações.

Sem perceber, fomos nos afastando uns dos outros. Em alguns ambientes, a competição substituiu a cooperação. O medo substitui a criatividade. A desconfiança ocupou o lugar da colaboração.

E, pouco a pouco, muitos profissionais deixaram de enxergar o verdadeiro significado do próprio trabalho.

Não porque tenham perdido sua capacidade, mas porque perderam, muitas vezes, a percepção do impacto que seu trabalho produz na vida das pessoas.

Quando um servidor da saúde compreende que seu trabalho começa muito antes do atendimento médico e envolve cada processo que garante o funcionamento de uma unidade de saúde, ele entende que não movimenta apenas documentos. Ele salva vidas e isso muda tudo!

Quando um servidor da educação percebe que sua atuação contribui para formar cidadãos, ele deixa de cumprir apenas uma rotina administrativa e ajuda a construir o futuro de uma sociedade.

Quando um profissional das licitações realiza um planejamento adequado, conduz uma contratação eficiente ou acompanha corretamente a execução de um contrato, ele não está apenas cumprindo dispositivos legais. Ele está garantindo que medicamentos cheguem aos hospitais, que merendas sejam entregues às escolas, que obras sejam concluídas, que serviços públicos funcionem e que direitos sejam efetivamente assegurados à população.

Nenhum processo administrativo é um fim em si mesmo, todos existem para melhorar a vida das pessoas.

E somente pessoas conscientes dessa missão conseguem produzir uma Administração Pública verdadeiramente eficiente.

A própria Lei nº 14.133/2021 nos oferece esse caminho.

Quando fala em governança, gestão por competências, segregação de funções, capacitação, planejamento e integridade, ela não está tratando apenas de procedimentos. Está propondo uma nova cultura organizacional e cultura não nasce dos sistemas e sim das pessoas.

O maior desafio dos gestores públicos nos próximos anos talvez não seja implantar mais sistemas altamente tecnológicos, ou elaborar manuais complexos e nem criar fluxos adequados. Talvez seja construir ambientes onde as pessoas sintam orgulho de servir. Onde a ética não seja apenas uma palavra escrita em um código de conduta, mas uma prática cotidiana. Onde o respeito seja percebido nas pequenas atitudes. Onde liderar significa desenvolver pessoas e não apenas cobrar resultados.

Precisamos resgatar o ser humano que existe por trás das telas dos computadores, dos relatórios, dos sistemas eletrônicos e, agora, da inteligência artificial.

A tecnologia continuará evoluindo. Os processos também. Mas nenhuma inovação substituirá valores que sustentam a sociedade. O respeito, a honestidade, a empatia, a responsabilidade e a cooperação.

Durante muito tempo acreditamos que eram as diferenças que precisavam ser superadas. Hoje aprendemos, aos poucos, a conviver com elas.

O que precisa ser resgatado é aquilo que sempre tivemos em comum.

O desejo de fazer o bem, o compromisso com o próximo, a capacidade de compreender que toda decisão administrativa produz reflexos na vida de alguém.

Existe um princípio muito antigo que atravessa culturas, religiões e gerações: tratar o outro como gostaríamos de ser tratados.

Talvez essa seja a regra mais simples e, ao mesmo tempo, a mais revolucionária para a Administração Pública contemporânea, porque nenhuma política de integridade será completa se não formar pessoas íntegras. Nenhum programa de governança produzirá resultados duradouros se não houver confiança entre as pessoas.

Uma Administração Pública eficiente não nasce apenas de boas leis, ela nasce, sobretudo, de homens e mulheres que compreendem que servir ao Estado é, antes de tudo, servir às pessoas.

E talvez seja exatamente esse o maior desafio do nosso tempo: resgatar a humanidade dentro da Administração Pública, para que todo o restante volte a fazer sentido.

Blog Opinião Simone Amorim
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